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domingo, 23 de agosto de 2009

Casal roda 23 Estados para atender doentes

Médicos largaram tudo em São Paulo e compraram jipe para socorrer população nas cidades mais miseráveis do país

Danielle, 34, e Carlos, 39, encontraram jovens que nunca tinham visto um médico e homens que ignoravam cura de doenças

O médico e a médica buscaram no site das Nações Unidas a lista das cidades mais miseráveis do Brasil. Num mapa, marcaram as piores de cada Estado e traçaram a rota. Compraram um jipe, largaram tudo em São Paulo -trabalho, casa, família e amigos- e caíram na estrada.
Com um plano que muitos viram como louco e perigoso, o casal Danielle Bertolini, 34, e Carlos Maknavicius, 39, cruzou 23 Estados -mais de 100 mil km- cuidando, gratuitamente, de brasileiros doentes que vivem nos rincões do país. A expedição começou em agosto de 2007 e foi até abril deste ano.
"Estávamos estabilizados profissionalmente, mas sentíamos falta daquela medicina que havíamos idealizado quando decidimos ser médicos. Não fazíamos medicina humana, não cuidávamos de quem realmente precisava", explica Danielle.
Carlos e Danielle se conheceram em 2006, fazendo plantão num hospital público da capital paulista. No ano seguinte, venderam o apartamento em que viviam para comprar o jipe, criaram a ONG Médicos da Terra e obtiveram o patrocínio de duas empresas. Telefonaram para as prefeituras avisando a data em que chegariam.
Em cada localidade, agentes de saúde os levavam às famílias carentes da zona rural. Diversas vezes o jipe perdeu peças em estradas esburacadas e atolou em trilhas enlameadas. No sertão nordestino, usaram cavalos para chegar aos pacientes. Na Amazônia, lanchas.
O casal atendeu a jovens que nunca haviam visto um médico na vida, a homens que se consideravam inválidos por ignorar que suas doenças tinham cura, a mulheres que haviam acabado de perder seus bebês e a crianças com vermes e piolhos.
"O nosso susto foi ver que 95% das pessoas na zona rural têm esgoto a céu aberto, evacuam atrás de casa e tomam a mesma água onde lavam a roupa e que os animais bebem, não lavam as mãos nem os alimentos. Tivemos de ensinar coisas bem básicas", lembra Danielle.
As prefeituras normalmente forneciam remédios. Eles às vezes dormiam em hotéis sujos na beira da estrada, às vezes em casas de família. Entre uma cidade e outra, armavam uma barraca de camping.
Nos momentos em que não trabalhavam, Carlos e Danielle foram turistas. Conheceram as pinturas rupestres de Minas, a Caetés natal do presidente Lula, os Lençóis Maranhenses, os búfalos da ilha de Marajó e os botos cor-de-rosa de Manaus.
Por outro lado, enfrentaram prefeito que não os aceitou no município, rios sem pontes, um índio armado que quis atacá-los, uma tentativa de roubo do jipe e Conselhos Regionais de Medicina que não lhes deram a permissão temporária para exercer a medicina naquele Estado -nesses casos, para evitar processos, só deram palestras.
O pior revés foi uma doença rara que acometeu Carlos. Uma infecção alimentar levou seu organismo a desenvolver uma doença autoimune. Ele teve inflamações no corpo e quase ficou cego. A viagem sofreu duas interrupções para que ele fosse levado de avião a São Paulo. Isso os obrigou a tirar Roraima, Amapá e Acre do trajeto.
Carlos e Danielle agora vivem em Fernandópolis, a cidade paulista onde ela foi criada, fizeram um diário da viagem (medicosdaterra.com.br) e pretendem escrever um livro.
Danielle se lembra da maionese caseira do sanduíche que comeu em Varre-Sai (RJ). Carlos, dos cafezinhos feitos na hora pelas famílias que os recebiam. "Estamos coçando os pés para viajar de novo", diz ele.
"Vimos coisas tristes, conhecemos um Brasil que não aparece em livro nem em reportagem. E ao mesmo tempo vivemos coisas muito boas, conseguimos ajudar. Mas nossa missão ainda não está cumprida."

Texto de Ricardo Westin na Folha de São Paulo de 22/08/09

Se você estiver com dor de dente


Se você estiver com dor de dente, qual a chance de passar do primeiro parágrafo?
Pergunta um tanto estúpida, provavelmente, nenhuma

ESSA É UMA das notícias mais devastadoras para o Brasil.

Entre fevereiro e julho deste ano, dez equipes de pediatria e 15 de saúde bucal examinaram 119.850 alunos
de escolas públicas e descobriram que a maioria deles tinha pelo menos um problema capaz de dificultar o aprendizado.
O documento, inédito, é mais grave de que parece. Os exames ocorreram apenas em crianças da cidade de São Paulo. Imagine o resto do país. É, de longe, um dos maiores escândalos de saúde dos brasileiros.
Suponha que, ao começar a ler esta coluna, você seja acometido subitamente de uma dor de dente.
Qual a chance de passar do primeiro parágrafo? Pergunta um tanto estúpida- provavelmente, nenhuma chance. Das crianças que passaram por exame bucal, 35% apresentaram alto risco de cárie -lembremos, de novo, que estamos falando de São Paulo, onde a água é encanada e, em geral, tem flúor.
Entende-se, assim, estudo publicado pela Universidade de Santa Catarina, a partir de dados do Ministério da Saúde: cerca de 40% dos brasileiros entre 15 e 19 anos já perderam um dente por causa de uma cárie. Isso significa que, para chegar a esse ponto, tiveram de passar um bom tempo com dor de dente.
A boca nem de longe é o caso mais grave.

Os dados são baseados em relatório, ainda reservado, do programa "Aprendendo com a Saúde", realizado na cidade de São Paulo, onde médicos e dentistas passam pelas escolas e fazem os encaminhamentos para a rede de saúde.
Dos examinados, 7% foram encaminhados para psicólogos, por demonstrarem distúrbios de comportamento; 12%, a fonoaudiólogos; 15%, a oftalmologistas; 18%, a otorrinos; 13%, a endocrinologistas. É gente que não enxerga, fala, ouve ou respira direito -além de sofrer com sobrepeso ou desnutrição.
Criador de uma rede de dentistas que atende gratuitamente, Fábio Bibancos constata que, com a questão bucal, aparecem problemas da fala, audição, digestão e autoestima, que se traduzem em notas ruins, evasão, indisciplina, violência. Daí ele defender que pasta de dente e escova seja entregue em posto de saúde - assim como a camisinha.
Bibancos aprendeu como muitos de seus pacientes ficam curvados por causa da boca: "Eles sempre ficam olhando para baixo, não querem encarar as pessoas, com vergonha dos dentes, e a postura, com o tempo, vai mudando."


Já existem algumas iniciativas (os programas federais Saúde na Escola e Brasil Sorridente, por exemplo), mas são tímidas para o tamanho da tragédia. Mesmo quando há recursos, existem desperdícios. O governo federal enviou para as prefeituras kits para exames médicos, mas muitos prefeitos deixaram o material fechado.
O projeto "Aprendendo com a Saúde", de São Paulo, é considerado um modelo, por fazer o exame e, ato contínuo, o encaminhamento, o que exigiu a montagem de um cadastro especial -aliás, considero a iniciativa mais inovadora de toda a gestão Kassab. Mas, por enquanto, limitada aos alunos da pré-escola.


Há uma crescente convergência no país sobre o que fazer para melhorar a educação: formar os professores e melhorar seus salários, premiar o mérito, treinar os diretores em gestão, aproximar o currículo do cotidiano, envolver pais e comunidade, trabalhar com metas, aprimorar as avaliações, estimular a leitura o mais cedo possível, aumentar a jornada de trabalho, oferecer reforços permanentes etc.
Um sinal da nossa ignorância coletiva é a saúde mental e psicológica dos estudantes nem remotamente estar incluída no topo dessa agenda.
Seria muito mais eficiente (e justo) avaliar antes a saúde das crianças e dos adolescentes do que o que eles sabem de português e matemática.
Não é á toa que tantos professores ficam tão doentes.


Ou você acha que o leitor com dor de dente conseguiu chegar até o final desta coluna?

PS - A Secretaria da Saúde da cidade de São Paulo está preparando uma medida que vai dar polêmica.
Mas vale a pena prestar atenção.
Além de construir centros odontológicos (as prometidas AMAs Sorriso, cuja versão federal são os Centros de Especialidades Odontológicas), é preciso credenciar dentistas privados que prestariam serviços em seus consultórios.
Um mapeamento mostrou que, em todas as regiões da cidade, existem dentistas. Coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) mais detalhes sobre os exames médicos nas escolas de São Paulo.

gdimen@uol.com.br

Texto de Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo de 22/08/09